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Mãe judia

 Perfil: Mãe judia
Ela usa a desculpa de não suportar ver o filho sofrer para controlar seu direito de ir e vir
Arnaldo Bloch
Mãe judia

Mamadrama: A Mãe Judia no Cinema





Em “Édipo Arrasado” (“Oedipus Wrecks”), episódio dirigido por Woody Allen no filme “Contos de Nova York” (1989), um bem-sucedido advogado judeu (Allen) se vê perseguido pela mãe (a atriz “Mae”(!) Questel), tão onipresente que chega ao ponto de interromper uma reunião de trabalho na firma do filho para lhe apresentar uma tia surda. Ele confessa ao seu psicanalista que, embora tenha por ela muito amor, gostaria que desaparecesse de uma vez.
Um dia, eles vão juntos a um espetáculo de mágica, e o ilusionista a escolhe como voluntária. A mãezinha é posta num armário, a porta se fecha e, quando se abre, não há ninguém. Tudo conforme o script. O problema é que, quando a operação se repete, a mãe não volta. O mal-estar é geral. O mágico está em choque e o público, em pânico. Já o filho, fascinado, tem um brilho nos olhos e exibe um estranho sorriso.
Após poucos dias de discreta apreensão, ele enfim aceita o mistério, mesmo porque a vida, repentinamente, parece um mar de rosas. Até que, numa bela manhã, ele acorda, sai à rua cantarolando e, ao olhar para o céu, vê o rosto da progenitora, gigante, no firmamento. Com um vozeirão, ela o acusa: diz que está malvestido, que não liga para a pobre mãe, que urinava na cama quando pequeno. O inferno, agora, é público e passa a fazer parte do cotidiano de Manhattan.
O que parece uma metáfora brutal (há vários outros exemplos no cinema e na literatura) não está longe do real. A mãe judia tem o dom da ubiquidade e nunca larga do pé do filho, que, frequentemente, sente-se, onde estiver, vigiado por um semblante no céu de qualquer cidade (com o advento do celular e do Skype, a coisa se agrava).
Ao mesmo tempo tiete e controladora, ela imputa ao filho uma culpa incurável: a culpa de fazê-la sofrer. Muitos dizem que a mãe italiana também é assim, mas uma anedota (entre as milhares que tratam do tema) esclarece a questão. Sabe qual a diferença entre a mãe italiana e a mãe judia? A mãe italiana diz: “Come, se não eu te mato.” Já a judia ameaça: “Come, se não você me mata” (ou, numa variação, “Come, se não eu me mato”).
A neura da mãe judia se origina num tipo de egoísmo involuntário causado pelo excesso de amor. Como ela não suporta a mera iminência de o filho sofrer, procura trancafiá-lo numa redoma (em geral, simbólica) para, na medida do possível, limitar seu direito de ir e vir. Quando o filho escapa, é autuado pelo hediondo crime de lesa-mãe, e o sofrimento dela passa para ele, num ciclo punitivo infinito que está mais para Sísifo que para Édipo. Já as outras mães, inclusive as italianas, tendem a aceitar um certo grau de risco controlado, para que o pássaro exercite suas asas.
As piadas em geral são fac-símiles do que de fato ocorre. A mãe dá de presente ao filho duas gravatas, uma verde, uma azul. Para alegrá-la, o filho vai a um almoço de família com a azul. Ao se encontrarem, ele recebe a reprimenda: “Você detestou a verde!” Num futuro quântico no qual duas gravatas possam ocupar o mesmo espaço, o dilema será equacionado. Mas se você ligar para sua mãe judia perguntando “como vai?” e ela disser “tudo ótimo”, pode fazer como o filho da piada e responder: “Desculpe, foi engano.”
Posso dar um exemplo de cunho pessoal, e espero que minha amada mãezinha me perdoe, em nome do humor judaico. Eu diria, batendo no peito quase com orgulho, que minha mãe é a mãe judia padrão, a mãe das mães judias, e desafio os patrícios a apresentarem prova em contrário. A história é a seguinte: entre os 8 e os 12 anos, era comum os meninos e meninas de origem hebreia passarem temporadas em colônias de férias sionistas de esquerda, em geral em cidades serranas.
Lá havia gincanas, aventuras, tobogãs de lama, travessias de rios com cordas e os famosos “empastamentos” (quem dormisse demais era coberto de pasta de dente e acordava congelado). O pessoal voltava com alguns arranhões, muitas histórias para contar e, às vezes, a lembrança do primeiro beijo na boca ou de amassos pré-adolescentes. No pior dos casos, quebrava-se uma perna ou meia dúzia de dentes.
Fui dos raros judeus cariocas a não participar da iniciação. Os motivos de mamãe para a proibição nada tinham a ver com o cunho socialista. Talvez ela nem soubesse disso. O problema era de outra natureza: ela tinha medo de que eu contraísse tifo, uma doença da qual só se ouve falar em romances antigos.
Há mil outras histórias, como a do álbum de figurinhas todo torto e melado de cola que ela corrigiu com água morna e completou para mim, abrindo meus pacotes novos e revistando minhas figurinhas trocadas. Até hoje me arrependo de ter gritado com ela, e sua expressão de tristeza me volta em sonhos. Aos 12 anos, peguei um ônibus 464 e fui ao Maracanã sozinho. Fui, vi e venci. Voltei vivo e liberto.
Daí em diante, passei a desafiá-la sempre que possível. Tive banda de rock. E uma motocicleta, que escondia numa garagem vizinha. Vivi no exterior e até em São Paulo. Hoje, rimos juntos desses episódios, mas, vira e mexe, olho para a Pedra da Gávea ou o Pão de Açúcar e, pasmo, vejo seu rosto, entre o piedoso e o severo, o compungido e o amoroso, zelando, velando, por mim.
Mas, ao contrário do filme, não quero que ela desapareça. Quer dizer, só de vez em quando, por um átimo, mas aí dá aquela saudade e a gente quer niná-la, como se fosse ela o bebê.

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