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Não tente ser aquilo que não é

Por Rabino Jonathan Sacks z”l
Os grandes líderes conhecem os próprios limites. Não tentam fazer tudo por si mesmos. Constroem equipes. 
Abrem espaço para pessoas que são fortes onde eles são fracos. Entendem a importância do controle e a separação de poderes. Cercam-se de pessoas que são diferentes deles. Compreendem o perigo de concentrar todo o poder num único indivíduo. Mas conhecendo seus limites, sabendo que há coisas que você não pode fazer - até mesmo coisas que você não pode ser - pode ser uma experiência desagradável. Às vezes envolve uma crise emocional.
A Torá contém quatro narrativas fascinantes de momentos assim, o que os conecta não são palavras, mas música. Desde o início da história judaica, a Torá era cantada, não apenas lida. Moshê no fim da vida chama a Torá de canção. Diferentes tradições cresceram em Israel e na Babilônia, e a partir de cerca do Século Dez em diante o canto começou a ser sistematizado em forma de notas musicais conhecidas como taamei hamikra, sinais de cantilação, criados pelos Masoretes Tiberianos (guardiães dos textos sagrados judaicos).
Uma nota muito rara, conhecida como shalshelet (“corrente”), aparece somente quatro vezes na Torá. Cada vez é um sinal de crise existencial. Três exemplos estão em Bereshit. O quarto está em nossa parashá. Como veremos, ligado à liderança. Num sentido amplo, os outros três também. O primeiro exemplo ocorre na história de Lot. Lot tinha se separado de seu tio Avraham e estabeleceu-se em Sodoma. Ali ele se assimilou à população local. Suas filhas se casaram com homens locais. Ele próprio sentou-se no portão da cidade, um sinal que tinha sido feito juiz.
Quando dois visitantes (na verdade dois anjos enviados) chegaram para dizer-lhe que saísse, D'us estava para destruir a cidade. Porém Lot hesita, e acima da palavra para “hesita” – vayitmahmá - está um shalshelet. (Gênesis 19:16). Ele fica em dúvida, em conflito. Sente que os visitantes estão certos. A cidade de fato está para ser destruída. Mas ele investiu todo seu futuro na nova identidade que moldou para si próprio e suas filhas. Se os anjos não o tivessem agarrado e levado para local seguro ele teria esperado até que fosse tarde demais.
O segundo ocorre quando Avraham pede a seu servo - tradicionalmente identificado como Eliezer - para encontrar uma esposa para seu filho Isaac. Os comentaristas sugerem que ele sentiu uma profunda ambivalência sobre sua missão. Se Isaac não casasse e tivesse filhos, a propriedade de Avraham passaria para Eliezer ou seus descendentes. Avraham já tinha dito isso antes de Yitschac nascer. “Senhor Soberano, o que pode me dar se eu continuar sem filhos e quem vai herdar minha propriedade é Eliezer de Damasco?” (Gênesis 15:2).
Se Eliezer fosse bem sucedido em sua missão, trazendo uma esposa para Yitschac, e se o casal tivesse filhos, então suas chances de um dia adquirir a fortuna de Avraham desapareceriam completamente. Dois instintos lutavam dentro dele: lealdade a Avraham e ambição pessoal. A lealdade venceu, mas não sem um profundo conflito. Daí o shalshelet (Gênesis 24:12). O terceiro nos leva ao Egito e à vida de Yossef. Vendido pelos irmãos como escravo, ele agora está trabalhando na casa de um egípcio importante, Potifar. Deixado sozinho na casa com a esposa de seu amo, ele se vê como objeto de desejo dela. Ele é bonito. Ela quer que ele durma com ela. Ele recusa. Fazer isso, ele diz, seria trair seu amo, marido dela. Seria um pecado contra D'us. Porém sobre “ele recusou” está um shalshelet, (Gênesis 39:8) indicando - como sugerem algumas fontes rabínicas e comentaristas medievais - que ele fez isso com considerável esforço. Ele quase cedeu.
Esse foi mais que o conflito usual entre pecado e tentação. Foi um conflito de identidade. Lembre que Yossef estava agora morando numa terra nova e estranha para ele. Seus irmãos o tinham rejeitado. Tinham deixado claro que não o queriam como parte da família. Por que ele não deveria fazer, no Egito, como os egípcios fazem? Por que não ceder à mulher de seu amo se é aquilo que ela queria? A questão para Yossef não era apenas “está certo?” mas também “sou um egípcio ou um judeu?”
Todos os três episódios são sobre conflito interior, e todos os três sobre identidade. Há vezes em que cada um de nós tem de decidir não apenas “O que devo fazer?” mas “Que tipo de pessoa serei?”
Isso é particularmente perigoso no caso de um líder, o que nos leva ao quarto episódio, dessa vez sobre Moshê. Após o pecado do bezerro de ouro Moshê tinha por ordem de D'us instruído os israelitas a construirem um santuário que seria, na verdade, uma morada simbólica permanente para D'us no meio do povo. Mas agora o trabalho está completo e tudo que resta para Moshê é induzir seu irmão Aharon e seus filhos ao serviço Divino como cohanim. Ele veste Aharon com as roupas especiais do sumo sacerdote, unge-o com óleo e realiza os vários sacrifícios adequados à ocasião. Sobre a palavra vayishchat, “e ele abateu [o carneiro do sacrifício]” (Levítico 8:23) há um shalshelet. Agora sabemos que isso significa que havia um conflito na mente de Moshê. Mas o que era?
Não há o menor sinal no texto que sugira que ele estava passando por uma crise. Porém um instante de reflexão deixa claro qual era o conflito de Moshê. Até agora ele tinha liderado o povo judeu. Aharon, seu irmão mais velho o tinha ajudado, acompanhando-o em suas missões ao faraó, agindo como porta-voz, ajudante e segundo no comando. Agora, porém, Aharon estava para assumir uma nova liderança por si mesmo. Não seria mais uma sombra de Moshê. Ele faria o que Moshê não pôde fazer: presidiria as oferendas diárias no tabernáculo. Mediaria a avodá, o serviço sagrado dos israelitas a D'us. Uma vez ao ano em Yom Kipur ele realizaria o serviço que traria perdão ao povo pelos seus pecados. Não mais sob a sombra de Moshê, Aharon estava para se tornar o tipo de líder que Moshê não estava destinado a ser: um Sumo Sacerdote.
O Talmud acrescenta outra dimensão à força do momento. Na sarça ardente, Moshê tinha resistido repetidamente ao chamado de D'us para liderar o povo. Por fim D'us lhe disse que Aharon iria com ele, ajudando-o a falar (Êxodo 4:14-16).
O Talmud diz que naquele momento Moshê perdeu a chance de ser um sacerdote. “Originalmente [disse D'us] Eu tinha pretendido que você fosse o sacerdote e Aharon seria um levita.”[3] Esse é o conflito interior de Moshê, transmitido pelo shalshelet. Ele está a ponto de induzir o irmão a um trabalho que ele próprio jamais fez. As coisas poderiam ter sido diferentes - mas a vida não é vivida no mundo do “poderia ter sido”.
Ele certamente sente alegria pelo seu irmão, mas não pode evitar uma sensação de perda. Talvez ele já sinta aquilo que mais tarde vai descobrir, que embora seja o profeta e libertador, Aharon terá um privilégio que Moshê não terá, ou seja, ver seus filhos e seus descendentes herdarem seu papel. O filho de um sacerdote é um sacerdote. O filho de um profeta raramente é um profeta. O que todas as quatro histórias nos dizem é que chega uma hora em que devemos tomar uma decisão suprema sobre quem nós somos. É um momento de verdade existencial. Lot é um hebreu, não um cidadão de Sodoma. Eliezer é servo de Avraham, não seu herdeiro. Yossef é filho de Yaacov, não um egípcio sem moral. Moshê é um profeta, não um sacerdote. Para dizer ‘sim’ para quem nós somos precisamos ter a coragem de dizer ‘não’ para quem não somos. Há sofrimento e conflito envolvidos. Esse é o significado de shalshelet.
Mas emergimos menos em conflito do que antes. Isso se aplica especialmente a líderes, e por isso o caso de Moshê na Torá é tão importante. Havia coisas que Moshê não estava destinado a fazer. Ele não se tornaria um sacerdote. Essa tarefa coube a Aharon. Ele não levaria o povo para atravessar o Jordão. Esse era papel de Yehoshua. Moshê tinha de aceitar os dois fatos com graça se quisesse ser honesto consigo mesmo. E grandes líderes devem ser honestos com eles próprios se quiserem ser honestos com aqueles que lideram.
Um líder jamais deve tentar ser todas as coisas para todos os homens (e mulheres). Um líder deve se contentar em ser aquilo que é. Um líder deve ter a força para saber o que não pode ser se tiver a coragem de ser ele mesmo.
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