
Após décadas de disputas judiciais, o Tribunal do Distrito de Tel Aviv concedeu na última quarta-feira, 1/7,
a custódia dos bens de Max Brod, amigo e editor de Franz Kafka, à Biblioteca Nacional de Israel, em Jerusalém.
A decisão do Tribunal pôs fim a uma longa disputa entre Eva e Ruti Hoffe - as filhas da secretária de Brod, Esther Hoffe, a quem o próprio Brod confiou sua coleção antes de sua morte em 1968 - e a Biblioteca Nacional de Israel, que estava lutando judicialmente pela posse dos documentos.
Os juízes descobriram que, um pouco antes de sua morte, em 2007, Esther Hoffe repassou ilegalmente a coleção a suas filhas, depois de haver vendido por somas vultuosas, também ilegalmente, vários dos mais importantes manuscritos a acervos particulares ao redor do mundo.
“É justo permitir que textos pessoais de Kafka - os quais ele ordenou que fossem destruídos - sejam vendidos para quem pagar mais, pela secretária de seu amigo e por suas filhas? Parece que a resposta a essa pergunta é clara”, escreveram os juízes na sentença.
No coração do debate está a equivocada situação jurídica da herança de Kafka. Brod - um relevante figurão do mundo cultural, conhecido por seu trabalho como novelista, jornalista, ativista sionista e compositor - recebeu a coleção das mãos de Kafka. Várias décadas depois, repassou-a como presente à sua secretária e colaboradora Hoffe, que foi por ele arbitrariamente nomeada como única herdeira desses bens em seu testamento.
Ele confiou o destino de todo o material aos cuidados de Hoffe, fornecendo uma lista de instituições - encabeçada pela Biblioteca Nacional de Israel - às quais ela deveria doar a coleção após ou até mesmo um pouco antes de sua morte.

De acordo com o advogado das filhas de Hoffe, a resposta a essa pergunta é um sonoro “não. ”
“Isso é chutzpa! ” exclamou o advogado, que pediu para se manter no anonimato, durante a entrevista à Agência de Notícias Tazpit. “A Lei de Herança de Israel, de 1969, proíbe qualquer instituição pública de reclamar bens particulares, ” ele explicou, citando inúmeros exemplos de vendas de bens de personalidades do mundo cultural israelense a acervos estrangeiros. “É uma questão de prestígio, ” ele acrescentou. “A biblioteca desejava se apossar de bens valiosos gratuitamente. ”
“Esther Hoffe agiu de maneira irresponsável, violando a essência do testamento, que requeria que ela colocasse os bens em um acervo público, e abusou de suas palavras para beneficiar a si mesma, ” retruca Meir Heller, o advogado que representou a Biblioteca Nacional. “Consequentemente, ela perdeu seu direito de transmitir essa herança a suas filhas, ” ele contou à Tazpit.
A decisão do Tribunal confirmou que o último pedido de Brod - de que a coleção fosse doada a uma instituição pública - foi o fator decisivo na história.
“Assim como Max Brod entendeu que era seu dever inquestionável publicar os trabalhos de Kafka à revelia de qualquer vontade contrária, é também nosso dever e privilégio concretizar esse objetivo, ” escreveu o juiz Kobi Vardi na decisão do Tribunal.
“E ainda que digam que estamos errados, todos ao menos concordarão que essa foi uma autêntica história Kafkiana de primeira classe, ” ele acrescentou.
Fonte: Tazpit Brasil
Texto: Ben Niran / Tradução: Graziela Dreilich
Crédito da foto: Jewish Business News / Wikipédia