Míssil iraniano atingiu o centro de Tel Aviv e deixou seis pessoas feridas — Foto: Avishag Shaar-Yashuv / The New York Times
O Irã lançou mais uma saraivada de mísseis contra Israel e Iraque nesta terça-feira, um dia depois de negar que mantinha negociações com os EUA, como declarado pelo presidente americano, Donald Trump. As autoridades israelenses disseram que os mísseis atingiram Tel Aviv, incluindo um com uma ogiva de cerca de 100 quilos, e o norte do país. Em alguns casos, não ficou claro se os impactos foram causados por mísseis ou por destroços resultantes de interceptações, mas eles causaram danos extensos a pelo menos três prédios residenciais e incendiaram carros. Segundo o jornal israelense Haaretz, pelo menos seis pessoas ficaram feridas em Tel Aviv. Já no Iraque, seis mísseis balísticos iranianos atingiram a região curda semiautônoma, deixando seis mortos e 30 feridos.
A declaração de Trump de que os Estados Unidos estavam mantendo conversas "muito boas" com Teerã foi feita horas antes do prazo que ele mesmo havia estabelecido para Teerã reabrir o Estreito de Ormuz, rota marítima vital para o escoamento de cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Ao anunciar as supostas negociações, Trump estendeu para sexta-feira a ameaça de "aniquilar" as usinas de energia e rede elétrica do Irã, caso as conversas não avancem.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, indicou que havia conversado com Trump e reconheceu que Washington acreditava que um acordo era possível, mas prometeu continuar atacando o Irã e o Líbano. Cerca de 40 minutos depois de Trump apontar que havia negociações, Israel anunciou uma nova onda de ataques a Teerã. Ao jornal britânico Guardian, as Forças Armadas de Israel (IDF, na sigla em inglês) disseram que o setor energético seria poupado.
Um enlutado segura uma fotografia do chefe de segurança do Irã, Ali Larijani, durante o seu funeral, ao lado de Gholamreza Soleimani, um oficial superior da Guarda Revolucionária Islâmica que comanda as forças Basij, em Teerã, em 18 de março de 2026 - ATTA KENARE / AFP
Nas últimas semanas, as IDF afirmaram terem eliminado mais de 70% dos lançadores de mísseis balísticos do Irã e dizem estar perto de estabelecer um controle quase total do espaço aéreo iraniano. Mesmo assim, Teerã continua a penetrar as defesas de Israel, em um sinal de que o país ainda é capaz de infligir danos na região apesar de ser alvo de intensos bombardeios de Israel e dos EUA. De acordo com o coronel israelense Miki David, o míssil com 100 quilos de explosivos era "algo que ainda não havíamos visto na guerra". Desde o início do conflito, segundo o Ministério da Saúde de Israel, 4.829 pessoas foram internadas. Destas, 111 permanecem hospitalizadas e 12 estão em estado grave.
Nesta terça, a agência de notícias iraniana Fars acusou Israel e EUA de lançarem ataques coordenados contra duas instalações de gás e um gasoduto, apesar do anúncio de Trump de que ataques desse tipo não seriam lançados até sexta-feira. "No âmbito dos ataques contínuos perpetrados pelo inimigo sionista [como o Irã chama Israel] e americano, o edifício da administração do setor de gás e a estação de regulação de pressão de gás da rua Kaveh, em Isfahan, foram alvos de ataques", informou a agência, que foi o único meio de comunicação a noticiar o incidente, acrescentando que instalações em Isfahã ficaram "parcialmente danificadas".
A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), o Exército ideológico do Irã, alertou que atacará as forças militares israelenses em Gaza e no norte de Israel se os "crimes contra civis no Líbano e na Palestina continuarem". A IRGC afirmou que os "locais de concentração" das "forças inimigas" serão alvo de "pesados ataques com mísseis e drones", pois os militares israelenses se aproveitam do conflito para cometer "crimes de guerra" contra civis palestinos e libaneses.
Também nesta terça, além de Israel, países do Golfo relataram ataques. A Arábia Saudita afirmou ter destruído pelo menos 20 drones, enquanto os Emirados Árabes Unidos disseram ter interceptado cinco mísseis balísticos e 17 drones provenientes do Irã.
'Não há negociações'
Segundo o site de notícias Axios, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, manteve conversas com os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner. Qalibaf, por sua vez, afirmou que "não há negociações" em andamento com Washington e insistiu que Trump está tentando "manipular os mercados financeiro e de petróleo".
Um rastro de foguete é visto no céu acima da cidade costeira israelense de Netanya, em meio a uma nova onda de ataques com mísseis iranianos em 24 de março — Foto: Jack Guez/AFP
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, afirmou que mensagens foram recebidas de "alguns países amigos indicando um pedido dos EUA para negociações com o objetivo de pôr fim à guerra", mas negou que tais conversas tenham ocorrido, informou a agência de notícias oficial iraniana Irna. Trump declarou que seu governo está em negociações com uma "pessoa de alto escalão" não identificada, mas não com o líder supremo do país, Mojtada Khamenei, que poderia estar ferido.
Ele descreveu esse indivíduo como "muito razoável", mas advertiu que, se as negociações fracassarem nos próximos cinco dias, "continuaremos a bombardear com toda a nossa força".
Ataques no Líbano
Quatro pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas em um ataque aéreo israelense contra uma casa na cidade libanesa de Selaa, segundo a Agência Nacional de Notícias (NNA) do Líbano. Os feridos foram transferidos para hospitais em Tiro, cidade no sul do país , onde Israel intensificou seus ataques. Na região, um soldado israelense, segundo a Autoridade de Radiodifusão de Israel, ficou ferido durante as operações.
Homem caminha em meio aos destroços no local de um ataque aéreo israelense no subúrbio de Bir al Abed, ao sul de Beirute — Foto: AFP
Ainda de acordo com a agência, Israel realizou sete ataques aéreos contra alvos do movimento xiita Hezbollah nos subúrbios do sul de Beirute. A cidade fronteiriça libanesa de Naqoura e os arredores da vila fronteiriça de Alma al-Shaab também foram atingidos por bombardeios de artilharia das forças israelenses.
Israel afirmou que o alvo era um membro da Guarda Revolucionária do Irã. E, na noite de segunda-feira, o Exército israelense também anunciou a captura de dois combatentes do Hezbollah no sul do Líbano. Nesta terça, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, disse que os militares assumirão o controle do sul do Líbano até o rio Litani, que fica a cerca de 30 km da fronteira.
— Todas as cinco pontes sobre o rio Litani, usadas pelo Hezbollah para a passagem de terroristas e armas, foram destruídas, e as IDF controlarão as demais pontes e a zona de segurança até o Litani — disse Katz durante uma visita a um centro de comando militar em Israel, acrescentando que as centenas de milhares de libaneses deslocados pela guerra "não retornarão ao sul do rio Litani até que a segurança seja garantida para os moradores do norte" de Israel .
Katz também afirmou que as IDF destruirão casas no sul do Líbano, assim como fizeram em Gaza. Segundo ele, Israel implementará "os modelos de Rafah e Beit Hanoun", referindo-se a duas cidades fronteiriças da Faixa de Gaza que Israel arrasou em sua ofensiva no território palestino.
No fim de semana, as forças israelenses atacaram a Ponte Qasmiyeh, uma importante passagem que liga o sul do Líbano ao resto do país, em uma ação que o presidente libanês, Joseph Aoun, descreveu como um "prelúdio para uma invasão terrestre".
Muitos libaneses temem que Israel esteja tentando separar o sul do Líbano do resto do país, preparando o terreno para uma invasão em larga escala. Isso significaria que muitas pessoas deslocadas de suas casas, após ordens de retirada em grandes áreas do sul do Líbano, não teriam para onde voltar.