Ataques israelenses deixaram ao menos 28 mortos e 30 feridos na Faixa de Gaza — Foto: OMAR AL-QATTAA / AFP
Poucas horas antes da anunciada reabertura parcial da passagem de Rafah, ataques aéreos israelenses mataram ao menos 32 pessoas neste sábado na Faixa de Gaza, segundo a Defesa Civil do território. A escalada ocorre em meio a acusações mútuas de violações do cessar-fogo firmado em outubro entre Israel e o Hamas e reacende a tensão em um momento considerado sensível pelas mediações internacionais.
De acordo com a Defesa Civil de Gaza, órgão de primeiros socorros que atua sob a autoridade do Hamas, o número de mortos desde o amanhecer foi atualizado ao longo do dia, subindo de 28 para 32. “A maioria das vítimas são crianças e mulheres”, afirmou a instituição em comunicado. Os ataques atingiram prédios residenciais, tendas que abrigam deslocados e uma delegacia de polícia.
No bairro de Rimal, na cidade de Gaza, uma casa foi destruída por uma explosão. À AFP, Samer al-Atbash, parente de vítimas do ataque, disse que três meninas morreram enquanto dormiam, e que palestinos encontraram seus corpos na rua. Segundo a direção-geral da polícia local, o bombardeio contra a delegacia deixou sete mortos, incluindo civis que estavam no local no momento do ataque.
No sul do território, em Khan Yunis, uma tenda que abrigava deslocados foi atingida, matando sete integrantes de uma mesma família, entre eles uma criança, segundo o gabinete de imprensa do governo do Hamas. Outro ataque teve como alvo al-Mawasi, área onde dezenas de milhares de palestinos vivem em condições precárias, em tendas improvisadas.
Em comunicado, o Exército israelense afirmou que os bombardeios foram realizados em resposta a um incidente ocorrido na sexta-feira, quando oito combatentes palestinos teriam saído de um túnel na cidade de Rafah, o que, segundo os militares, configuraria uma violação do acordo de trégua. Israel disse ainda ter atingido “quatro comandantes e outros terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica”.
O Hamas classificou os ataques deste sábado como um “crime brutal”. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, ao menos 509 pessoas morreram por disparos ou bombardeios israelenses desde o início do cessar-fogo. Israel, por sua vez, afirma ter perdido quatro soldados no mesmo período. As restrições impostas por Israel ao acesso da imprensa internacional impedem a verificação independente dos números.
Egito e Catar, que atuam como mediadores, condenaram as “violações repetidas” do cessar-fogo e pediram “moderação” às partes, diante da expectativa pela reabertura parcial de Rafah — a única ligação da Faixa de Gaza com o exterior que não passa por Israel. Segundo Tel Aviv, a passagem deve ser reaberta neste domingo apenas para um fluxo limitado de pessoas e ocorrerá “em coordenação com o Egito”.
O anúncio israelense está longe de atender, no entanto, às demandas do Hamas e da ONU. Na última quarta-feira, cerca de 10 países, entre eles França e Reino Unido, instaram Israel a permitir a entrada “sem obstáculos” de ajuda humanitária em Gaza.
A expectativa é a de que, com a reabertura de Rafah, também seja permitida a chegada dos integrantes da Comiss Nacional para a Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês), responsável por gerir o território durante um período de transição, no âmbito do plano do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar a guerra.
Desde 10 de outubro vigora um frágil cessar-fogo na região sob pressão de Washington. Neste mês, o acordo entrou em sua segunda fase, que prevê o desarmamento do Hamas, a retirada das forças israelenses de mais áreas de Gaza e o envio de uma força internacional de estabilização.
Tensão no Líbano
A escalada regional também se refletiu no sul do Líbano. Um ataque de drone israelense contra um veículo matou uma pessoa neste sábado, segundo a agência estatal libanesa NNA. Israel afirmou ter como alvo um integrante do Hezbollah, apesar do cessar-fogo em vigor desde o fim de novembro de 2024. O Hezbollah não comentou a alegação.
Entenda: Como Israel passou a apoiar discretamente milícias palestinas em Gaza para enfraquecer o Hamas
Autoridades libanesas acusam Israel de violar repetidamente o acordo, enquanto Tel Aviv diz continuar atacando o que chama de infraestrutura do grupo xiita. Desde o início das operações militares israelenses contra o Líbano, em outubro de 2023, mais de 4 mil pessoas morreram.
Em Gaza, quase toda a população de cerca de dois milhões de habitantes foi deslocada ao menos uma vez ao longo de mais de dois anos de guerra. Centenas de milhares vivem hoje em tendas. O conflito teve início com o ataque do Hamas ao sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, que deixou 1.221 mortos, a maioria civis, segundo levantamento da AFP com base em dados oficiais. Desde então, mais de 71 mil palestinos morreram em decorrência da ofensiva israelense, segundo o Ministério da Saúde de Gaza — número considerado confiável pela ONU.