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Daphne Klajman fala à CONIB sobre o trabalho do Hillel

 

Daphne Klajman fala à CONIB sobre o trabalho do Hillel de reunir jovens de diferentes correntes religiosas e posições políticas
Daphne Klajman fala à CONIB sobre o trabalho do Hillel

Com uma trajetória dedicada à educação e ao enfrentamento do antissemitismo, Daphne Klajman compartilha, em entrevista ao Histórias Reais da CONIB, experiências pessoais que marcaram sua vida, desde os episódios de preconceito que enfrentou durante seus estudos no Canadá até sua decisão de retornar ao Brasil para contribuir com a formação de jovens judeus. “Há milhares de anos os judeus são um só povo, e assim seguirão no futuro”. E o Hillel ocupa um espaço singular na visão de Daphne: o do pluralismo verdadeiro. Judeus de diferentes correntes religiosas, posições políticas e experiências comunitárias encontram ali um ambiente em que podem expressar suas opiniões, desde que o diálogo seja respeitoso. Em tempos de polarização, a instituição procura mostrar que discordar não significa romper vínculos.

A convicção de Daphne Klajman resume sua trajetória e orienta seu trabalho à frente da Coordenação Acadêmica do Hillel Rio: fortalecer a identidade judaica, formar jovens preparados para enfrentar o antissemitismo e construir pontes em uma comunidade marcada pela diversidade.

Uma experiência que se transformou em propósito

Carioca, Daphne foi morar no Canadá aos 19 anos. Foi lá que vivenciou manifestações de antissemitismo que, até então, conhecia pouco. Em uma sala de aula, ao afirmar que era sionista, foi chamada de “estupradora” por uma professora. Sem compreender a associação, decidiu estudar, aprofundar seus conhecimentos e transformar a experiência em ação.

Tornou-se ativista universitária, trabalhou por quatro anos e meio no ISGAP, instituição dedicada à pesquisa e ao combate ao antissemitismo, e fez mestrado em Israel sobre antissemitismo na diplomacia e o Hamas.

Após o 7 de outubro de 2023, sentiu que precisava colocar sua experiência a serviço da comunidade onde cresceu. Voltou ao Brasil e encontrou no Hillel Rio o espaço para transformar conhecimento em formação, acolhimento e mobilização.

Conhecimento para enfrentar o ódio

Ao chegar ao Hillel, em junho de 2024, Daphne identificou uma lacuna: faltavam programas acadêmicos estruturados que preparassem os jovens para compreender e responder às manifestações contemporâneas do antissemitismo.

Criou, então, o Fellowship sobre Antissemitismo e Suas Raízes, curso de oito semanas que já formou mais de 140 alunos. Além da formação histórica, os participantes retornam mensalmente para encontros práticos, debates e discussões sobre acontecimentos atuais.

Os resultados aparecem nas universidades e nas relações cotidianas. Uma aluna, por exemplo, conseguiu apresentar um contraponto fundamentado a uma palestra que classificava a criação do Estado de Israel como racista e genocida. A professora lhe concedeu 15 minutos para expor seus argumentos.

Para Daphne, esse é o poder da educação: oferecer instrumentos para pensar criticamente, reconhecer narrativas de ódio e dialogar sem abrir mão da própria identidade. O objetivo é formar jovens multiplicadores, capazes de levar o conhecimento às universidades, questionar preconceitos e criar pontes mesmo em ambientes polarizados.

Um lugar onde todos cabem

O Hillel ocupa um espaço singular na visão de Daphne: o do pluralismo verdadeiro. Judeus de diferentes correntes religiosas, posições políticas e experiências comunitárias encontram ali um ambiente em que podem expressar suas opiniões, desde que o diálogo seja respeitoso.

Em tempos de polarização, a instituição procura mostrar que discordar não significa romper vínculos. Para Daphne, o antissemitismo pode se manifestar em diferentes campos políticos, religiosos e culturais, muitas vezes de maneira disfarçada. Por isso, o pensamento crítico é indispensável para reconhecer o preconceito onde quer que ele apareça.

Mas o trabalho do Hillel vai além da formação acadêmica. A casa também oferece convivência, amizade e conexão com as tradições judaicas. Há jovens que procuram um espaço para celebrar o Shabat, aprender sobre Rosh Hashaná e Pessach ou descobrir práticas que não tiveram a oportunidade de vivenciar em família.

São experiências que criam laços duradouros. Daphne se emociona ao ver jovens que chegaram sem amigos judeus construírem redes de amizade, viajarem juntos para Israel e compartilharem momentos importantes da vida. Ver essas relações ultrapassarem os limites da instituição é, para ela, a confirmação de que o trabalho floresceu.

A força de permanecer juntos

O maior desafio, reconhece Daphne, é aproximar jovens que chegam marcados pela polarização e pela dificuldade de ouvir opiniões diferentes. Muitos não acreditam que exista um lugar onde possam pertencer sem precisar se encaixar em uma única corrente ideológica.

Sua resposta é simples: convidar, acolher e oferecer uma primeira experiência. Depois, muitas vezes, o próprio jovem encontra motivos para voltar.

Seu sonho é ampliar os projetos de combate ao antissemitismo, criar espaços seguros nas universidades e multiplicar o conhecimento por meio de jovens capazes de levar o aprendizado adiante.

A mensagem que deixa é um chamado à união, sem apagar as diferenças:

“Não existe causa, não existe briga, não existe discordância grande o bastante para te afastar do que você é.”

Para Daphne, preservar a identidade judaica significa reconhecer que cada pessoa pode ter suas próprias ideias, mas que a história, a tradição e o sentimento de pertencimento permanecem como elos comuns. É possível discordar e continuar juntos. É possível pensar diferente sem deixar de fazer parte da mesma família.

E, para quem ainda não conhece o Hillel, ela faz um convite afetuoso: há um lugar para você. Não importa o que pensa ou acredita, sempre haverá alguém para recebê-lo — de preferência, com pipoca.

Porque a educação fortalece, o acolhimento aproxima e a identidade se renova quando é compartilhada. E porque, como acredita Daphne, sempre existe algo no judaísmo capaz de fazer os olhos brilharem. O importante é descobrir o que é — e encontrar pessoas dispostas a ajudar nessa jornada.

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