Só este ano foram 228 denúncias. Vítimas relatam ofensas, tentativas de intimidação e ameaças de morte
Por Joziane Barbosa — Rio de Janeiro
Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) mostram que o Rio registrou 228 denúncias de intolerância religiosa de janeiro a julho deste ano, o segundo maior número do país. O estado ficou atrás apenas de São Paulo, com 329 ocorrências no mesmo período, território com mais do que o dobro da população fluminense.
Somente em junho, foram feitas 37 denúncias — 117% acima do registrado no mesmo período do ano passado, quando houve 17 ocorrências. Em meio ao avanço do número de casos, integrantes de um terreiro de umbanda no Méier, na Zona Norte, relatam que foram alvos de preconceito, intimidação e ameaças motivadas por sua crença religiosa.
— A nossa gira ainda estava acontecendo quando a vizinha da casa ao lado gravou um áudio e enviou para a esposa do proprietário do imóvel. Eu não acreditei quando ouvi — conta Pai Alexandre de Oxóssi, representante do espaço Terreiro de Umbanda Sementes de Oxóssi, no Méier.
Dados do Disque 100 também mostram que a intolerância parte de pessoas próximas às vítimas. Os vizinhos aparecem como autores em 54 das ocorrências. O número sugere que muitos dos episódios acontecem no cotidiano, dentro dos próprios bairros e das comunidades onde templos e terreiros estão inseridos.
“Eu não acredito que seu esposo alugou a casa para um centro de macumba. Os vizinhos vão fazer um abaixo-assinado para multar vocês! Me admira muito vocês alugarem a casa para um centro de macumba. Não pensaram nos vizinhos! Está uma gritaria! É um barulho horrível”, diz o áudio atribuído à vizinha.
Situação constrangedora
Ainda segundo o representante do centro, o dono da casa, que foi alugada recentemente, não expressou qualquer opinião. Ele apenas informou ao inquilino que a vizinhança parecia estar insatisfeita com o terreiro na Rua Castro Alves. Foi uma situação constrangedora:
— Eu fiquei muito surpreso e até revoltado com o áudio — conta Alexandre de Oxóssi, que é umbandista há 11 anos e sacerdote há quatro. — A gira acabou antes das 22h e não usamos nenhum instrumento musical, como o atabaque. Não teve “gritaria” ou “barulho horrível”, mas sim um alinhamento interno com os médiuns. Eu já tive um centro de umbanda na Abolição, também na Zona Norte, e não tive qualquer problema lá.
O segundo ataque aconteceu durante uma gira em 9 de julho, quando a vizinha da casa dos fundos ligou a caixa de som com um louvor evangélico em volume bem alto e começou a cantar na direção do terreiro.
— Eu fico me perguntando se isso tudo aconteceria com uma igreja católica, se iriam querer fazer um abaixo-assinado ou ligar uma caixa de som para atrapalhar a demonstração da nossa fé — disse o sacerdote. — Fiz o orçamento para instalar isolamento acústico e ficou em cerca de R$ 9 mil, mas nós não temos esse valor agora. Estamos arrecadando doações e vendendo feijoada para conseguir o dinheiro. Até lá, estamos com medo de praticar a nossa fé e sermos impedidos. A denúncia de intolerância religiosa ainda não foi feita, mas penso sinceramente em fazê-la.
A legislação brasileira considera crime praticar, induzir ou incitar discriminação por motivo religioso, bem como impedir ou empregar violência contra manifestações de fé. A pena prevista é de dois a cinco anos de prisão, além de multa.